Experiências romeiras: O sol estava alto*

18/09/2017 Por: Mauro Cordeiro - Seminarista da Diocese de Crato

O sol estava alto e o relógio já marcava quase duas da tarde. De ônibus, fui, do Crato para o Juazeiro, no intuito de vivenciar a já conhecida “Procissão dos Caminhões”, na tarde do dia quatorze de setembro. Explico: tratava-se de uma atividade pastoral proposta aos seminaristas: acompanhar a procissão com os romeiros, nos veículos. Eu, como a maioria dos juazeirenses, cresci participando desse momento, mas, do lado de fora – do lado de cá! Lembro-me que ficava na calçada da Rua do Cruzeiro com Santa Isabel, um pulo de minha casa. Anualmente, aquele era o lugar de esperar os bombons lançados da janela dos ônibus, e, ainda, entre uma desacelerada e outra, respondíamos à gentileza oferecendo um pouco de água gelada. Em minha memória, nenhuma lembrança de fazer tal trajeto no carro de romeiro, do lado de dentro – do lado de lá! E claro, por isso, também, a proposta foi muito bem-vinda.

Chegando a Juazeiro, pouco depois das três da tarde, deparo-me com o previsível: o trânsito parado. Necessário foi descer na parada do Hospital de Fraturas e caminhar pouco mais de um quilômetro até o segundo Batalhão da Polícia Militar. Lá era a concentração, onde marcava o início da procissão e a bênção para os veículos. No caminho, inúmeros ônibus e carros de passeio contornavam o cruzamento das avenidas Padre Cicero com a Castelo Branco.

Na Praça do Giradouro, algumas pessoas atônitas, outras já estavam a esperar famigerados doces. No caminho – encurtado pelo estacionamento do Shopping – o aglomerado nas calçadas só aumentava. Parece que todo mundo parou pra ver a procissão. No jardim da Receita Federal, alguns fazendários saíram à porta, pra esperar também. E ainda, ao levantar a vista, acima dos carros, era possível perceber um pé-de-jasmim, que, a todo custo, ultrapassava o muro da escola do 2º grau – já defronte ao Batalhão – que estava a celebrar, também.

O calor é o genuíno de setembro, assim como a alegria. Um, dois, três… dez! Os ônibus passavam num piscar de olhos. Chegando à concentração, juntei-me ao aglomerado para agarinhar algumas guloseimas. Depois, já a postos com o outro irmão seminarista, fiquei um minuto esperando que aparecesse um caminhão pau-de-arara. No entanto, vejo um ônibus bastante enfeitado e, quase no tempo de uma respiração, mudei de ideia. Quando o carro se aproximou e parou, nos identificamos e perguntamos se podíamos entrar. O motorista não hesitou, e de logo autorizou a nossa subida. Os romeiros, mesmo que tímidos, gostaram. Na verdade eles estavam bastante ocupados; Olhavam pela janela, acenando para os filhos da terra, arremessando bombons.

“Quer confeito?” – me ofereceram. Claro que aceitei. Mas recebi um punhado bastante generoso, e só depois entendi a intensão: era pra jogar também! Interessante, porque do lado de lá é diferente. Não dá pra conversar muito – as buzinas cobrem quaisquer ruídos. E, mesmo com toda essa dificuldade, me atrevo e passo a perguntar a um e a outro quantas viagens já fizeram a Juazeiro e se estavam gostando. No entanto, o momento era de lançar os doces.

Já alcançando a rua São Benedito – a segunda rua do trajeto, percebo um senhor bastante emocionado. É o seu Fernando (52 anos) que diz nunca ter imaginado presenciar um momento tão lindo como aquele. Presto mais atenção e percebo que está acompanhando sua esposa, Eliane (49 anos). Ela, sem perguntar, me oferece uma pastilha – desta vez, é para mim! Aceito – e agradeço – também em silêncio. Fico aquietado para não atrapalhar o momento. E então, me vendo tentando registrar por fotos as pessoas que estavam nas ruas, seu Fernando é quem continua a conversa.

Ele começa lamentando não ter comprado mais confeitos, porque queria distribuir a todos que estivessem nas calçadas. É a primeira vez que está em Juazeiro e se emociona muito ao tempo que se indaga: como o povo que aqui tem tanta fé? “Meu filho, a fé das pessoas aqui é de verdade, né só brincadeira, não. Eu nunca vi isso!”, comenta com a voz embargada.

Na troca de bombons, acabo descobrindo que eles são da cidade de Jaboatão dos Guararapes, próximo a capital pernambucana. Logo quando subi, havia perguntando ao motorista a origem do grupo. Aquela era uma romaria de Caruaru (PE). Sem entender o porquê de estarem ali, questiono: “De Jaboatão?” E Eliane responde: “Nosso ônibus não tem janelas, então, vimos esse ônibus todo enfeitado, com janelas, e pedimos para acompanhar a procissão daqui, porque nós queremos participar de tudo”. Pensei: fez igual a nós.

 

No avançar da conversa, descobri que eles são engajados nas atividades da Igreja. São casados há 26 anos e têm duas filhas, uma de vinte e dois e outra de vinte e quatro. Pertencem à comunidade da Paróquia de Nossa Senhora de Loureto, atuando na Pastoral Familiar. Eliane ainda é conselheira na Comissão Paroquial de Pastoral (CPP). Um casal muito abençoado!

 

“Ali fora tão vendendo fardo de pipoca de cinco reais!”, avisou o motorista – que também distribuía confeito. Não deu outra, rapidinho o casal correu para adquirir mais mantimentos. Mesmo não sendo o bastante, tardaria um pouco mais a falta. Difícil foi não se lembrar de Nossa Senhora, que acorreu a Jesus: “Eles não têm mais vinho… fazei tudo o que Ele vos disser”. A festa ia continuar um pouco mais.

 

E, de fato, emocionante foi ver seu Fernando lançando pela janela os confeitos e algumas pipocas. Já na rua do Cruzeiro – a última do cortejo – é que vieram mesmo a acabar. E muito interessante é que, mesmo sem doces, a animação deles não acabou. Quando Eliane se viu com os sacos vazios, não pensou duas vezes: acenava com a mão direita e gritava: “Deus te abençoe!”. E ainda, como se o exemplo não bastasse, convidava os demais tripulantes: “Gente, já que não tem mais confeito, deseja que ‘Deus abençoe’, mas não fica parado, não!”. Esse foi o gesto mais lindo da tarde.

 

A poucos metros da praça Pe Cicero, uma foto juntos pra registar o momento. Teve ainda a troca do número dos telefones, desejando que a alegria daquele momento se estenda um pouco mais. Depois do último abraço, para concluir, um estrondoso “Viva ao Padre Cicero e à Mãe das Dores”, e o desejo de boa viagem na companhia de Deus.

“É dando que se recebe”. Certamente, essa foi uma mensagem que marcou essa experiência no coração do seminarista-romeiro. Não vivemos para nós, mas para os outros; e o menor gesto de empatia ajuda a derrubar a grande muralhada da indiferença presente na nossa sociedade. O coração cheio de Deus é um coração agradecido, carinhoso… é a vida que se oferta a Deus, na vida dos irmãos.



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