O Encontro de Maria com Jesus no Caminho do Calvário

O Encontro de Maria com Jesus no Caminho do Calvário

Categoria: Artigos

15/04/2025 Por: Pe. Cícero José da Silva

Pe. Cícero José da Silva

Pe. Cícero José da Silva

Reitor da Basílica Santuário Nossa Senhora das Dores


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Meus irmãos e minhas irmãs,

Hoje, convido vocês a meditarmos sobre uma cena profundamente comovente: o encontro de Jesus com sua Mãe no caminho do Calvário. Um momento que, embora relatado brevemente nos evangelhos e nas tradições da Igreja, carrega uma das maiores revelações do amor humano e divino. Um Filho ensanguentado e uma Mãe dilacerada. Nenhuma palavra é dita. Porque o amor que os une fala por si. Maria vê o rosto do seu Menino — aquele que um dia ela embalou nos braços, agora deformado pela dor, cuspido pela violência, esmagado pelo desprezo. E Jesus, ao vê-la, reencontra por um instante a ternura do lar, mesmo nos momentos mais sombrios.

Imaginem, por um instante, o cenário. As ruas de Jerusalém estão tomadas por gritos, empurrões, pedras, chicotes. O Filho de Deus, ferido, coroado de espinhos, cambaleia sob o peso de uma cruz que não era sua. A multidão se agita, mas no meio de tudo isso, dois olhares se encontram: o do Filho sofredor, e o da Mãe que sofre com Ele.

Ela não grita, não se desespera. Apenas sofre. Silenciosamente. Profundamente. Como tantas mães de hoje. Nos becos escuros das cidades, em vielas marcadas por sirenes e tiros, há outras Marias. 

Não há palavras. Porque ali, no silêncio, fala o amor mais puro que existe. O olhar de Maria não é de desespero, embora a dor seja imensa. É um olhar terno, firme, cheio de uma compaixão que só as mães conhecem. Ela não corre para impedir o sofrimento. Ela não protesta, não tenta intervir. Ela apenas está. E o seu estar muda tudo. Ela oferece o consolo da presença. O conforto de um amor que não abandona, mesmo no auge da dor.

O Calvário continua. As ruas seguem sendo percorridas por muitos Cristos modernos. E as mães, essas heroínas anônimas, continuam firmes, mesmo com o coração em pedaços, sustentadas apenas por esse amor que não desiste nunca.

E aqui, irmãos, é impossível não pensar nas tantas Marias de hoje. Quantas mães vivem o seu próprio Calvário? Quantas veem seus filhos sendo esmagados, não mais por cruzes de madeira, mas por vícios, por abandono, pela violência das ruas, pela indiferença da sociedade? Filhos perdidos no submundo das drogas, arrastados para um mundo sem cor, sem saída, sem esperança. E as mães… ah, as mães continuam lá. Com o mesmo olhar de Maria. Um olhar que diz: “Eu estou aqui. Mesmo que você não me veja. Mesmo que tudo doa. Eu não vou te abandonar.”

Maria, naquele encontro, não evitou a cruz. Mas ela a transfigurou com a força do amor. Um amor silencioso, firme, presente. E é esse amor que sustenta tantas mães hoje, quando tudo o mais falha. É esse amor que denuncia uma sociedade que crucifica os frágeis e abandona os que mais precisam.

Se queremos ser discípulos de Jesus, precisamos também aprender com Maria. A permanecer. A amar até o fim. A ser consolo onde há dor. A ser presença onde há solidão. A ver Cristo nos crucificados do nosso tempo.

O olhar de Maria no caminho do Calvário não terminou ali. Ele continua vivo no olhar das mães das periferias, das favelas, das zonas de guerra, dos hospitais, dos abrigos. Mães que se ajoelham diante de filhos despedaçados, mas que continuam acreditando, esperando, amando.

E talvez, meu irmão, minha irmã, a sua missão hoje seja ser esse olhar para alguém. Talvez Deus te chame não para carregar a cruz de alguém, mas para caminhar ao lado. Para amar no silêncio. Para consolar com a presença. Porque às vezes, só isso já é tudo.

Que o olhar de Maria nos ensine o amor que não desiste. E que, ao nos depararmos com os calvários de hoje, não passemos apressados como a multidão, mas sejamos presença fiel, como Ela foi. Porque no olhar de Maria, há algo que o mundo ainda não entendeu: o amor que sofre junto é o amor que redime.

Amém.

Pe. Cícero José da Silva

Reitor da Basílica Santuário Nossa Senhora das Dores

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