Reflexão para a Noite de Natal

Reflexão para a Noite de Natal

Categoria: Basílica

30/12/2021 Por: Pe. Cícero José da Silva

Pe. Cícero José da Silva

Pe. Cícero José da Silva

Reitor da Basílica Santuário Nossa Senhora das Dores


O que celebramos hoje não é uma aparição celeste, desencarnada. É o resultado de um “sim” a partir de um recado de Deus para Ela, jovem mulher, Maria que acolheu para sempre o filho de Deus na humanidade e na história.

Oh, noite bela, sublime, diferente das demais noites! O amor simples de Deus na sua humildade assume a nossa humanidade para levar a todos a sermos santos como Deus, o nosso Pai, é santo.

Nesta noite, somos desafiados a deixar que o Cristo, que veio ao mundo por meio do “sim” de Maria, agora nasça espiritualmente nas nossas comunidades, pastorais e em cada filho/filha dessa Igreja peregrina, romeira e missionária. Deixemos que Jesus nasça hoje através de nós.

Ao olharmos para Maria, a Senhora das Dores com coração transpassado pela espada da inveja, do orgulho, da soberba e da concorrência, acolhamos o convite que Ela nos faz de olhar para o Filho que tanto ama o mundo e pelo o mundo é pouco amado.

Que neste Natal - e em todos os outros - sejamos Mães de Cristo, Pais de Cristo, irmãos de Cristo. De que forma? Escutando a Palavra e colocando-a em prática.

Somos todos mães de Cristo, diz São Francisco, quando O levamos em nosso coração e em nosso corpo, pelo amor divino e a consciência pura e sincera e ao darmos à luz pela santa operação que deve iluminar os outros com o nosso exemplo. Acredito que São Francisco, autor do primeiro presépio, quis nos ensinar que concebemos Cristo quando O amamos com sinceridade de coração, com retidão de consciência; quando o trazemos ao mundo e quando fazemos obras santas que o manifestam ao mundo e dão glória ao Pai que está nos céus.

Não só nesse Natal, mas sempre, olhemos para Maria e a imitemos neste nosso tempo, deixando, realmente, que Jesus nasça em nossos corações.  Vamos dizer não a tudo que tenta usurpar o lugar do Deus Menino, vamos trazer de volta, por palavras e ações, a essência do Natal.

O primeiro Natal e o “sim” do Padre Cícero Romão

E há exatamente 150 anos “foi nessa capela, tão pequena e bela, que nosso padrinho o Natal celebrou”. Assim diz um dos benditos entoados pela nação romeira. Daqui, deste altar, Padre Cícero Romão Batista celebrou a missa pela primeira vez na Vila Tabuleiro Grande. É uma data marcante para todos nós, seus devotos e afilhados, e mais ainda para nós, os continuadores da sua missão.

Historiadores como Daniel Walker, de saudosa memória, nos ajudam a entender aquele distante ano de 1871. Era véspera de Natal como hoje. O professor Semeão Correia de Macêdo, amigo próximo do jovem Cícero, recém-ordenado pela Santa Igreja, o convidou para visitar o povoado de Juazeiro, que pertencia ao Crato naquele tempo, e aqui rezar a tradicional Missa do Galo. Padre Cícero tinha então 28 anos, era baixo, de pele branca, cabelos loiros e olhos azuis. De cara, como dizemos popularmente, causou boa impressão. E tanto gostou dos moradores como os moradores dele. Quatro meses depois estava de volta, agora de mala e cuia, como também dizemos. O pastor segundo Jesus tem o coração livre para deixar as suas coisas, não vive fazendo a contabilidade do que tem e das horas de serviço: não é um contabilista do espírito, mas um bom Samaritano à procura dos necessitados”, nos exorta o Papa Francisco.

O Santo Padre nos diz ainda que “o coração do sacerdote é um coração trespassado pelo amor do Senhor”. Foi o que também aconteceu ao jovem padre Cícero. Após ter passado horas e horas confessando os moradores na escolinha do Vilarejo, procurou descansar no quarto vizinho à sala onde tinham improvisado o seu alojamento. Adormeceu e teve um sonho, que podemos interpretar como uma visão profética: viu Jesus e os doze apóstolos sentados na mesa, como no quadro da Última Ceia pintado pelo italiano Leonardo da Vinci, quando uma multidão entra na sala carregando trouxas e crianças de colo. Jesus se vira para essa multidão e fala o quanto está decepcionado com a humanidade, mas apesar disso está disposto a fazer um último sacrifício para salvar o mundo, desde que os homens se arrependam. Caso contrário, iria acabar com tudo de uma vez. Nisso, aponta para o Padre Cícero e diz: “E você, Padre Cícero, tome conta deles!”.

Esse pedido, meus irmãos e minhas irmãs, vindo justamente do Coração de Jesus, penetrou com força no coração daquele jovem padre profetizando a essência de sua vida sacerdotal e pastoral: acolher e compreender as dificuldades e as misérias pelas quais o povo sofrido e retirante do interior do Nordeste passava naquele tempo, sendo vítima da seca, de doenças contagiosas, da exploração dos coronéis e da falta de assistência dos governos. Como podemos ver, situações não muito distantes de hoje.

Padre Cícero certamente ficou surpreso e teve medo, da mesma forma que Maria teve medo ao receber a notícia de que seria Mãe do Filho de Deus. Mas seguindo o exemplo d’Ela, não olhou para ele mesmo, colocou-se à disposição de Deus. E na convivência com os moradores da Vila Tabuleiro passou a dar um “sim” diário e firme. Cada vez que fazia isso, renovava as promessas feitas no dia da sua ordenação: receber a oferenda do povo (ou seja, as misérias, as dificuldades, mas também as alegrias e superações) para apresentá-la a Deus; tomar consciência do que vai fazer e por em prática o que vai celebrar, conformando a vida ao mistério da Cruz do Senhor.

E passados 150 anos do início desse apostolado, que lições tiramos? O que celebramos?

A primeira delas, com certeza, é a renovação do nosso compromisso pastoral de “tomar conta do povo” porque foi esse o pedido feito por Nosso Senhor ao Padre Cícero.  E essa também era a sua identidade de pastor.

Nós, sacerdotes, somos os continuadores da missão e por ela devemos assumir a mesma identidade. Nossas mãos foram ungidas para consagrar o Pão e o Vinho, transformando em Corpo e Sangue de Cristo, e também para levantar os que estão sofridos, caídos e fragilizados principalmente na alma; para socorrer os que se encontram nas periferias existenciais da vida, como nos fala o Papa Francisco, e para ser sinal da presença e do amor de Deus. Tudo isso num mundo tomado pelo individualismo e a autorrefencialidade, como também nos adverte o Santo Padre, não é fácil, é complexo, é desafiador. Mas agimos na pessoa de Cristo o que significa que devemos nos conduzir com mais rigor em termos de coerência, de caridade e de fraternidade.  

Já vocês, povo de Deus, destinatários da missão, devem seguir o que o próprio padrinho ensinou: “rezar todos os dias, pela manhã e à noite, o Rosário”, “se confessar, comungar, praticar a caridade e não andar fazendo mal a ninguém” porque “nunca é tarde para cuidarmos da nossa salvação”; e mesmo diante das dificuldades, dos problemas, do cansaço “é preciso dar o primeiro passo e o resto o nosso bom Deus fará”; no mundo da ganância devemos “ser honestos, rejeitar o que não presta e proteger o meio ambiente”, entre outras tantas lições.

“Não tem quem acabe com a romaria em Juazeiro. Foi um chamado da Mãe de Deus”, disse o Padre Cícero, com certeza em alta voz. Para que essa profecia continue então se cumprindo temos de continuar o seguimento do apostolado iniciado por ele na pequena capela que cresceu e se tornou esta Basílica Santuário, honrando a sua memória, observando os seus ensinamentos e respondendo a tudo com o seu mesmo “sim” generoso e fiel.

Deus está no comando e juntos somos mais fortes para fazermos isso e tomar conta do povo.

 

 

 

 

 

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