Servo de Deus Padre Cícero Romão: o “Padim” do Sertão

Servo de Deus Padre Cícero Romão: o “Padim” do Sertão

Categoria: Artigos

20/07/2023 Por: Fagner Andrade

Fagner Andrade

Fagner Andrade

Pernambucano
Romeiro de Salgadinho
Mestre em Antropologia e Cientista Social pela UFPE.


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No último dia dez de julho, fomos informados acerca do tema e da arte visual do Ciclo de Romarias 2023-2024: “Servo de Deus Padre Cícero Romão: o “Padim” do Sertão. Esse tema norteará todo o fluxo de peregrinação que arregimenta mais de dois milhões de romeiros ao ano (CORDEIRO, 2010) às terras do Juazeiro do Norte - CE. Entretanto, faz-se necessário que voltemos um pouco a todo um conjunto de elementos que estão por trás desse tema tão próximo de nossa realidade nordestina e devota. O “padim” é que está perto, é quem cuida, ajuda e protege.

Quando pensamos na pessoa do “Padim”, logo nosso interior se enche de sentimentos múltiplos como: emoção, afeto, carinho, amor, devoção, próprios da relação que se estabelece a algo ou alguém muito próximo de nós. O Padre Cícero, no auge de sua missão, desenvolveu uma pastoral ancorada na realidade do sertanejo nordestino e isso fez com que ele pudesse alcançar corações, transformar realidades e despertar vocações dentro do serviço religioso, social e político. Costumo refletir que isso é umas das principais causas da “imorredoura” pessoa de Cícero Romão através dos aspectos culturais do Nordeste.

Dificilmente pensamos em Nordeste e não nos vem Padre Cícero como uma das personalidades representativas do Sertão. A poesia dos cordéis, dos repentes, a musicalidade de Luiz Gonzaga e de tantos outros músicos, a xilogravura, e uma imensa e complexa oralidade fez com que, através das socializações familiares e comunitárias, o “Padim” entrasse naquilo que nós compreendemos como religiosidade e cultura popular.

Histórias e estórias popularizaram o nome do Padre Cícero e do Juazeiro pelo Nordeste afora. Tudo isso é resultado de uma ação pastoral que foca na evangelização com uma linguagem própria do seu povo e de sua cultura. Ele foi inovador no que se refere a utilização das ferramentas culturais e piedosas, da religiosidade do povo que fala na essência e atinge-o numa ação prática, transformadora e concreta. A vida Política do “Padim” não o impediu de permanecer intacto e fiel ao seu propósito, infelizmente os contextos que vivemos nos impedem de olhar a política como uma importante ferramenta, porém, o Padre Cícero soube utilizá-la da melhor forma, conservando sua integridade e buscando o verdadeiro bem comum, transformou Juazeiro num espaço de acolhida, “casa e pão” para todos que buscassem refúgio, saúde e vida digna.

Juazeiro do Norte tornou-se uma cidade santuário (ANDRADE, 2020), pois nela os romeiros encontram vida, esperança e conforto. Ao longo de sua vida, o Padre Cícero não buscou atrair para si, mas ao contrário, direcionou o peregrino à pessoa de Jesus e de nossa Mãe das Dores. Sempre escutei desde minha infância, através de meus avós, que o Padim foi um grande conselheiro. Esses testemunhos estão nas cartas que o mesmo escrevia aos romeiros, nelas estão recomendações e orientações terapêuticas, sociais e espirituais. Ele esteve preocupado com a vida como um todo, em sua totalidade. Essas referências estão traduzidas na fé, na arte, no bendito, no artesanato, nos empreendimentos e, acima de tudo, na presença massiva dos nordestinos que mesmo oitenta e nove anos depois de sua passagem permanecem fiéis ao que lhes foi ensinado.

Sabemos que muitos caminhos ainda precisam ser percorridos principalmente do ponto de vista pastoral. O mundo tem desafiado nossas ações e ferramentas, entretanto, o Padre Cícero nos convida a se aproximar, sem medo, sem preconceitos e sem discriminação, acolhendo e se fazendo acolhida para tantos náufragos, para outros que experimentam as “secas” dos tempos de hoje, por outros que não tem casa, nem pão, nem teto, tampouco educação. Acredito piamente que o tema do Ciclo de Romarias 2023-2024 muito mais do que uma reflexão, nos lança a um olhar na história do “Padim”, naquilo que ele fez diante das complexidades da sua época e, ao mesmo tempo, nos convida ao presente, nos instigando e nos fazendo devolver no hoje e no agora atitudes sólidas que unem a fé e a vida, buscando transformar realidades duras, promovendo a esperança, confortando os corações daqueles que ainda hoje acorrem a estas terras em busca de vida e vida em abundância.

Que possamos trilhar um belo caminho de romarias com nosso “Padim”...

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