Categoria: Artigos
22/03/2023 Por: Assessoria de Comunicação
I Simpósio de Religiões e Espiritualidades: Pluralismo Religioso e Cosmovisões no Nordeste
Mesa especial: Estudos, vivências e práticas das irmãs Annette e Ana Teresa em Juazeiro do Norte
Em nome da Comunidade Sacerdotal e da Paróquia Nossa Senhora das Dores, Basílica Santuário, Juazeiro do Norte, parabenizo a Universidade Regional do Cariri pela organização deste I Simpósio de Religiões e Espiritualidades. “As universidades”, lembra o Papa Francisco, “são lugares onde as mentes se abrem para os horizontes do conhecimento, para os horizontes da vida, do mundo, da história”. E, desde a sua fundação, a Urca oferece substanciosa contribuição à nossa igreja local ao despertar em seus alunos o gosto por compreender as manifestações culturais, espirituais e devocionais que ocorrem nos mais variados espaços, especialmente no que toca à figura e à atuação do Padre Cícero Romão Batista.
Especialmente hoje, nos reunimos aqui para recordar os estudos, as vivências e as práticas das queridas e saudosas Irmãs Annette e Ana Teresa. Junto às co-irmãs da Congregação de Nossa Senhora/Cônegas de Santo Agostinho - as quais cumprimento em nome da vigária, Irmã Arlene - foram enviadas à Diocese de Crato para servir ao povo de Deus confirmando os irmãos e irmãs na simplicidade e na pureza da fé romeira, que passa de pais para filhos na caminhada para o santo Juazeiro, nos benditos entoados nos transportes e nas procissões, no pagamento de promessas e nas visitas aos espaços sagrados.
Esta mesa, professor Océlio, professor José Carlos e professor Renato Casemiro, é motivo de grande alegria, porque nos permite fazer memória e agradecer. Annette e Ana Teresa ajudaram a construir a identidade romeira de nossa Igreja Diocesana não apenas oferecendo contribuições intelectuais, mas vivenciando, junto conosco, o dia a dia das romarias com a sua riqueza de expressões, rituais e símbolos. Graças ao empenho das duas, convicções foram desconstruídas e outras esclarecidas. Como sabemos, as romarias eram vistas inicialmente com muitos estigmas tanto pelo campo teológico quanto social. Eram vistas como fanatismo, idolatria e ignorância. Felizmente, superamos.
Além dessa contribuição significativa sobre a situação romeira, Annette e Ana Teresa compartilharam algumas responsabilidades pastorais com a Paróquia Nossa Senhora das Dores, iniciada em 1976 com o Monsenhor Murilo de Sá Barreto e o Monsenhor José Alves de Oliveira, ambos de saudosa memória.
É bonito pensar que, em meio à pesquisa acadêmica, na labuta com os romeiros, buscando entender a aproximação deles com o Sagrado, elas mesmas foram ressignificadas deixando aflorar em seus corações os votos religiosos por meio dos quais consagraram a vida a Deus. Sim, mais do que mulheres da ciência, eram mulheres consagradas harmonizando vivência acadêmica e apostolado. Irmã Annette dizia muito: “Minha vocação é aqui, com os romeiros, com o povo, sendo freira, cantando para os romeiros…”.
“Ser freira com o povo”, que também pode nos soar “sofrer com o povo”, era a força espiritual que favorecia o próprio encontro com Deus na vocação que abraçaram. Esse jeito materno de tratar os romeiros, ouvindo a todos com atenção, criou um laço afetivo especialmente para a Irmã Annette. Ser “madrinha dos romeiros” era um parentesco que a enchia de alegria e dava a ela uma identidade.
Foi, portanto, dessa harmonia entre fé e razão, entre as pesquisas acadêmicas e a labuta com o povo, que nasceu o Centro de Psicologia da Religião com seu vasto acervo bibliográfico; o Centro de Acolhida aos Romeiros, a Sala de Informação aos Romeiros, espaço onde os peregrinos registram as suas caravanas e são direcionados conforme as suas necessidades; as ações pastorais na Rua do Horto, desde a escola Poço de Jacó à formação dos círculos bíblicos, além do olhar apurado para as minorias com a Associação de Artesanato Nossa Senhora das Dores. Ao incentivá-los à emancipação através do trabalho, cumpria este preceito do Padre Cícero Romão: “Em cada casa um oratório, em cada quintal uma oficina”. Também recordamos a idealização do “Encontro das Três Horas” que ainda hoje é realizado em épocas de romarias. “O meu desejo com esse encontro”, dizia Irmã Annette, “era dar aos romeiros direito de falar, para que eles continuassem a ser os protagonistas de sua romaria”.
Por tudo isso, ilustres professores e caros estudantes, damos graças a Deus. O apostolado de Annette e Ana Teresa enriqueceu as universidades, apontou caminhos para as pesquisas acadêmicas, mas, acima de tudo, abriu os horizontes pastorais de nossa igreja diocesana, a tornou sensível para reconhecer as romarias como manifestação singela da fé e elevou o romeiro à categoria de protagonista de nossa ação missionária em Juazeiro do Norte.
Agradecemos ao prof. Océlio e aos que colaboraram para a organização deste nosso encontro, e a todos os envolvidos neste Simpósio desejamos frutuosas discussões. Que seja ocasião de diálogo e colaboração entre os diversos saberes para o desenvolvimento de nossa sociedade. E que vocês, queridos estudantes, possam guardar no coração este conselho que a própria Irmã Annette ouviu de sua superiora: “Faça seu doutorado, estude. Porque os pobres merecem que a gente se forme para servi-los”.
Servir aos pobres, nos ensina o Papa Francisco, não se trata apenas de serenar a nossa consciência dando esmolas, mas modificar a cultura da indiferença e da injustiça com que olhamos para eles. "Servir aos pobres, nos diz o Santo Padre, incita à ação e permite encontrar as formas mais adequadas para levantar e promover esta parte da humanidade, demasiadas vezes anônima e sem voz”. Essa também deve ser a missão de quem detém o conhecimento, de quem vive e atua na Universidade.
Obrigado!
Pe. Cícero José da Silva
Reitor da Baílica Santuário Nossa Senhora das Dores
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