Olhar a dor do outro como se fosse minha

Olhar a dor do outro como se fosse minha

Categoria: Artigos

10/07/2026 Por: CNBB


 

Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! Diante de certas situações que tocam a vida e a realidade social podemos ter várias reações. Podemos ser indiferentes, fazer de conta que não vemos o sofrimento do outro, nem ouvimos o seu grito de desespero pedindo ajuda, ou seu pedido de socorro, manifestado no olhar, no silêncio e às vezes nas lágrimas.  

Também Jesus, num certo dia, foi interrogado por um mestre da Lei, que desejava herdar a vida eterna e, querendo ter uma resposta que fosse ao encontro do seu desejo e livrasse o seu coração da angústia, perguntou: “Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” (Lc 10,25-37). Antes de fazer a pergunta, esse homem, que era doutor da Lei, reconhece que existe um desejo que habita dentro de si e move seu coração: “a vida eterna”.   

“O que devo fazer para herdá-la?” – pergunta o doutor da Lei. Jesus não dá uma resposta pronta, mas orienta o doutor para que ele encontre uma resposta, através da leitura da Lei que está nas Sagradas Escrituras, e afirma: ali encontrarás tu mesmo a resposta. Mas Jesus não o abandona, prossegue o diálogo com o doutor, dizendo que para viver eternamente é suficiente fazer aquilo que diz a Lei, o que está escrito na Sagrada Escritura, envolver-se com a Palavra de Deus em primeira pessoa, deixando que ela conduza a sua vida. Diz ainda: na Palavra, encontrarás a semente da vida e praticando-a, viverás eternamente, desde agora.  

No coração daquele homem, porém, existe um bloqueio, uma palavra que não o ajuda a encontrar resposta para a pergunta que está perturbando a sua vida: “O meu próximo”. “Quem é este meu próximo?” Ao término da parábola, Jesus abre a inteligência do doutor da Lei, refazendo a pergunta que o incomodava, a partir da parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37): “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” 

Como cristãos podemos e devemos ser solidários, manifestando a nossa compaixão e nos tornando sinal do amor, da ternura e da misericórdia de Deus para com os irmãos que padecem. O bom samaritano não fica perguntando quem é meu próximo, ele se faz próximo daquele que precisa, sabe manifestar compaixão, é capaz de ações de misericórdia, generosas, desinteressadas e livres de preconceitos. O exemplo dele é Jesus, que se fez próximo de cada um, dos justos e injustos, dos santos e pecadores, dos amigos e inimigos. Ele está atento não só às próprias preocupações, mas também às necessidades dos outros. Para o samaritano, o próximo não é definido por uma teoria, mas por um apelo à sua misericórdia: o fazer-se próximo pelo amor-caridade, comprometido com a vida, com o irmão, com a vida eterna no Reino de Deus. 

 

A presença do próximo não deve ser fabricada, mas descoberta, revelada, no contexto em que vivemos, assim como a presença de Deus na minha vida. Talvez a parte mais difícil seja deixar-se fazer próximo: tomar consciência que não é um mérito nem vanglória, e, com humildade, fazer aquilo que me é possível fazer, tornando real o amor na ação que faço. Para que o dom não humilhe o outro, devo dar não somente alguma coisa do que me pertence, mas a mim mesmo; devo saber estar presente no dom que ofereço (cf. Bento XVI, Deus caritas est, 34-35). 

 

Dom José Gislon
Bispo de Caxias do Sul (RS)

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