Que caminho vemos a nossa frente?

Que caminho vemos a nossa frente?

Categoria: Artigos

04/03/2026 Por: Pe. Cícero José da Silva

Pe. Cícero José da Silva

Pe. Cícero José da Silva

Reitor da Basílica Santuário Nossa Senhora das Dores


Semana passada, voltando de Canindé, depois de participar do encontro dos reitores de Santuários do Ceará — um momento bonito de celebração e de comunhão fraterna entre os irmãos de caminhada — peguei o celular e fiz um registro da estrada, no percurso entre Cedro e Mangabeira. Enquanto contemplava a paisagem, comecei a pensar na experiência do “caminho” em nossa vida cristã.

A estrada que vemos à nossa frente, às vezes longa e até solitária, nos lembra dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35) e também do cego Bartimeu (Mc 10,46-52). Cada um, à sua maneira, estava “parado” à beira do caminho: os discípulos, imobilizados pela tristeza e pela decepção; Bartimeu, limitado pela exclusão e pela dor. O caminho revela aquilo que carregamos por dentro. É nele que aparecem nossas dúvidas, o cansaço acumulado, os medos que tentamos esconder. Mas é justamente nesse cenário que Jesus se aproxima e começa a caminhar conosco. Assim, a estrada que antes parecia lugar de desânimo se transforma em espaço de encontro e seguimento, porque o contato com Jesus muda nossa posição na vida.

Vejam que a estrada da foto tem subidas e descidas. Essa é a dinâmica cristã. Como ouvimos domingo passado no Evangelho da Transfiguração (Mt 17,1-9), não há glória sem o caminho que leva ao Calvário. A alegria verdadeira passa pela fidelidade na cruz. E como canta Padre Zezinho: “São tantos os desvios onde a gente vai, tantas as ciladas onde a gente cai…”. Por isso, é preciso escutar a voz do Pai e permanecer firmes na rota que Ele nos indica.

Ao olhar também para as margens da estrada, pensei nas realidades que nos cercam. Durante sua caminhada, Jesus defendeu mulheres, acolheu os pobres, curou enfermos, partiu o pão, devolveu dignidade aos excluídos/esquecidos. Não podemos ignorar, portanto, a dor de tantas mulheres vítimas de violência, muitas vezes dentro da própria casa. Não podemos fechar os olhos para a falta de moradia, para a fome que desfigura a imagem de Deus nos irmãos, para a fragilidade da vida humana. Seguir Jesus pelo caminho significa também olhar para as margens com compaixão e agir.

O caminho que vemos à nossa frente, portanto, não é apenas paisagem. É um chamado e um convite de Deus à nossa conversão e à nossa missão. Ser Igreja é ser comunidade em saída, que não teme o cansaço da viagem nem os desafios da estrada, porque sabe que o próprio Cristo é o “Caminho, a Verdade e a Vida”. E, com Ele, toda estrada — mesmo a mais longa, cheia de pedra e areia, como cantamos nas nossas romarias — torna-se caminho de esperança.

Um abraço do pai e amigo,

Padre Cícero José

 

 

 

 

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